A Grande Virada: Da Euforia Digital à Ativos Reais

a grande virada

Uma Tese Macro para a Década de 2025-2035

Por Silas Spagnol

Minha tese para os próximos anos não é pessimista sobre o progresso humano, mas é cética quanto ao preço que o mercado financeiro está pagando por ele hoje. Acredito que estamos vivendo uma mudança de paradigma monetário e tecnológico que não acontecerá em linha reta, mas sim em três atos distintos: a euforia final, o choque de realidade recessivo e, por fim, a “Grande Rotação” para o valor real.

Nos últimos artigos falei bastante de minhas teses macro para curto e médio prazo. Nesse artigo vou apresentar minha visão em uma linha do tempo de curto, médio e também de longo prazo.

Para navegar os próximos anos, é preciso entender não apenas o que comprar, mas quando mudar a mão. Abaixo, detalho minha visão cronológica e fundamentalista.


Curto Prazo: O “Blow-off Top” e a Inércia da Euforia (Agora até Início de 2026)

No cenário imediato, a tendência permanece de alta. Estamos vivenciando o que a análise técnica clássica chama de Blow-off top: O momento final de exaustão de um ciclo de alta, caracterizado por um descolamento entre preço e fundamento, impulsionado por pura liquidez e narrativa.

O foco atual é a revolução da Inteligência Artificial e a tecnologia Blockchain. Não nego o impacto transformador dessas tecnologias; elas mudarão a humanidade e a produtividade global. No entanto, o mercado financeiro opera por expectativas, e hoje as expectativas estão precificadas à perfeição, ignorando riscos macroeconômicos latentes.

Neste curto prazo, a liquidez ainda busca risco (Risk-on). Os valuations estão esticados, mas bolhas especulativas tendem a se expandir além do racional antes de colapsarem. Quem apostar contra a tendência agora pode ser atropelado pela euforia. Estamos num momento onde a promessa de lucros futuros distantes vale mais do que a geração de caixa presente. Por isso, mantenho uma exposição tática, ciente de que estamos dançando perto da porta de saída.


Médio Prazo: O Choque de Realidade e a Recessão (2026)

A virada de chave deve ocorrer ao longo de 2026. Minha projeção é que enfrentaremos uma desaceleração econômica significativa ou até mesmo uma recessão global. Essa visão não é baseada em “achismo”, mas em indicadores antecedentes que historicamente nunca falharam:

  1. O Efeito Defasado dos Juros (Lag Effect): A política monetária restritiva dos últimos anos opera com um atraso de 12 a 18 meses. O aperto de crédito está drenando a liquidez da economia real silenciosamente. O consumidor global, que sustentou o PIB até agora, mostra sinais claros de esgotamento, com taxas de inadimplência subindo e poupança excedente pós-pandemia zerada.
  2. Indicadores Antecedentes (LEI): O Leading Economic Index (LEI) vem sinalizando contração há meses, divergindo do mercado de ações. Historicamente, quando o LEI cai consistentemente e o mercado sobe, o mercado está errado.
  3. Spread da Curva de Juros: A inversão e desinversão do spread da curva de juros, que marcou todas as recessões das últimas décadas, na qual expliquei detalhadamente no meu último artigo.

A Tese da IA: Revolução Real, Retornos Duvidosos

É neste cenário de liquidez restrita e desaceleração em 2026 que a minha tese sobre tecnologia vai se tornar clara. Estamos revivendo a dinâmica da Bolha das “Dot-com” dos anos 2000. Naquela época, a internet de fato mudou o mundo, mas o índice Nasdaq levou 15 anos para recuperar seus topos nominais. O motivo? Valuation e competição.

O problema central que vejo para 2026 é a “Comoditização da Inteligência”. Hoje, o mercado paga múltiplos de monopólio para empresas de IA. Porém, a barreira de entrada está caindo. Com todos os grandes players (Big Techs, startups, modelos open-source) investindo trilhões em CAPEX para desenvolver modelos de linguagem similares, a vantagem competitiva se diluirá.

O que hoje é um produto premium, amanhã será commodity. Isso levará a uma guerra de preços que esmagará as margens de lucro de todo o setor. Com certeza terá algumas poucas empresas que vão ser as vencedoras do jogo e vão gerar o retorno esperado. Mas a grande maioria não vai justificar seus valuations hiper valorizados.

A tecnologia vencerá, mas o investidor que pagou 50x ou 100x o lucro verá uma correção brutal. Em 2026, o mercado separará o joio do trigo, punindo severamente os projetos de IA e Cripto que não possuem fluxo de caixa real para sustentar seus valuations em um ambiente de juros mais altos e economia lenta.


Longo Prazo: A Grande Impressão e a Ascensão dos Ativos Reais (2027 em diante)

O pós-crise de 2026 preparará o terreno para a tese principal. Acredito que a resposta dos governos à recessão de 2026 não será a austeridade, mas sim o pânico.

Diante de um colapso deflacionário e desemprego, os Bancos Centrais e Tesouros Nacionais, que já absurdamente endividados, serão forçados a coordenar a maior injeção de liquidez da história moderna para “salvar o sistema”. 

A consequência inevitável dessa impressão desenfreada de dinheiro será a deterioração da confiança nas moedas fiduciárias (Dólar, Euro, Real).

É neste ambiente de descrédito da moeda de papel que prevejo o início de um Ciclo de Ativos Reais e Commodities a partir de meados de 2027. Diferente do ciclo dos anos 2000, este não dependerá apenas da demanda chinesa, mas de fundamentos de oferta estruturais:

  1. A Crise de Oferta (Supply-Side): Passamos a última década subinvestindo na “Velha Economia”. Mineradoras, petrolíferas e indústrias de base foram penalizadas por ESG e falta de capital. Não há novas minas de cobre ou campos de petróleo prontos para entrar em operação. Quando a liquidez voltar em 2027, a demanda encontrará uma oferta física inelástica, provocando uma explosão nos preços das commodities.
  2. A Fuga para Reserva de Valor: Investidores institucionais e soberanos buscarão proteção em ativos que o governo não pode imprimir. Ouro, Prata, Terras Agrícolas e Energia se tornarão os portos seguros preferenciais, drenando capital que antes ia para Títulos Públicos e empresas de Growth que se sustentavam com crédito barato.
  3. A Rotação do “Growth” para o “Value”: Em um mundo de inflação estruturalmente mais alta e desconfiança monetária, o investidor prefere o dividendo hoje (Empresas de Valor) do que a promessa de crescimento daqui a 10 anos (Empresas de Tecnologia).
  4. Aumento de Inflação:  Desde 2008 o mercado se viciou em dinheiro a juros quase zero, impressão de dinheiro através incentivos e pacotes de trilhões de dólares, especialmente na pandemia, causando aumento exponencial da dívida pública. Tudo isso irá pressionar a inflação na próxima década, após a recessão.
  5. Aumento de Juros: O rompimento da tendência de baixa de 40 anos nos Yields (juros) dos Treasuries sinaliza que o mercado de Bonds já percebeu o que o mercado de ações ignora: o dinheiro barato acabou estruturalmente. Quem define a precificação dos juros futuros é o mercado, que exigirá juros maiores para estar financiando dívidas com moedas se deteriorando. Empresas que não geram caixa e resultados vão ter dificuldades de se manter sem o crédito barato.

O Papel do Brasil e Mercados Emergentes: A Lição Argentina

Existe um temor racional quanto ao risco político no Brasil e na América Latina. Contudo, minha tese incorpora a “Lição Argentina”.

Mesmo em cenários de deterioração fiscal ou populismo econômico (como o atual governo do PT e alguns de seus vizinhos), a Bolsa de Valores e os Ativos Reais tendem a funcionar como o melhor hedge inflacionário disponível. 

Vimos isso na Argentina e na Turquia: enquanto a moeda local virava pó e a renda fixa gerava prejuízo real, o mercado de ações (em especial empresas exportadoras de commodities) subiu exponencialmente em termos nominais, protegendo o poder de compra do investidor em Dólar.

A menos que ocorra uma ruptura institucional total (cenário Venezuela, onde o mercado de capitais deixa de existir), acredito que os Mercados Emergentes podem performar igual ou até melhor que a bolsa americana e outros mercados desenvolvidos na próxima década.

 Enquanto o S&P 500 irá digerir a ressaca dos valuations de tecnologia, o Brasil que é rico em tudo o que o mundo precisa na economiaa real (alimento, energia, minério) e negociando a múltiplos descontados, será um beneficiário natural do fluxo de capital global em busca de ativos tangíveis.

Conclusão

Estamos no fim da era da “Riqueza de Papel e Dígital” e no início da era da “Riqueza Real”. Minha estratégia é dinâmica: surfar o final da euforia tecnológica atual com cautela, preparar a liquidez para o choque recessivo de 2026 e, quando os Bancos Centrais ligarem as impressoras novamente, rotacionar agressivamente o portfólio para Ativos Reais, Commodities e Empresas de Valor. O futuro será tecnológico, mas a riqueza da próxima década será construída sobre o que é escasso e tangível.

Disclaimer: Esse estudo e tese Macro não podem ser considerado recomendação de investimentos. A Macroeconomia não é uma ciência exata e seu “Timming” pode ser impreciso. Consulte um profissional antes de tomar decisões de investimentos.

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